13 de fev. de 2012

O Clube dos Lacaios de Ouro Preto


Introdução: Talvez este seja o artigo que escreverei com maior facilidade, visto que tenho o prazer de tocar nesse bloco há mais de dez anos e fora isso, desde criança, ser um dos seus admiradores.

No texto I sobre a História do Carnaval brasileiro, eu já apresentei como foi o início e quem fundou este importante bloco. Neste, vou aprofundar um pouco mais e mostrar como foi a sua transferência para Ouro Preto e como ela possibilitou o caminho do sucesso, resistindo a todos esses anos, tornando-se hoje um dos principais nomes do carnaval do nosso país.

Zé Pereira dos Lacaios: passado e presente de glórias

Fundado no Rio de Janeiro em 1846, pelo português José Nogueira Paredes, durante 21 anos. No ano 1876, o seu fundador mudara para Ouro Preto onde seria funcionário do Palácio do Governo, essa mudança possibilitou uma reestruturação no bloco e aqui ele foi novamente fundado, agora com um propósito e com a ajuda dos colegas de trabalho.

Aqui, tornou-se Zé Pereira dos Lacaios, ou Clube dos Lacaios. Por que ‘’Lacaios’’? Esse apelido era dado aos funcionários do Palácio do Governo e que eram tidos como bajuladores. A partir daí, o bloco começou a usar fantasias, com destaque para o uso de cartolas e fraques, e das lanternas que serviam para iluminar o caminho por onde o bloco passava.

O trajeto do bloco inicia-se no bairro Antônio Dias em direção à Praça Tiradentes  passando pelas principais ruas do centro histórico de Ouro Preto. Lembro de que até uns anos atrás, o bloco, todos os anos, começava os ensaios no dia 30 ou 31 de dezembro, ali marcava a chegada do período carnavalesco na cidade. Há muitas décadas o Zé Pereira, merecidamente, é o responsável pelo desfile de abertura do carnaval da cidade.

Geraldo Caboclo
No período que antecede o carnaval os membros do bloco saem vestidos com calças pretas e camisas brancas. Antes apenas camisas sociais brancas eram aceitas, hoje, devido ao calor e à informalidade do momento, camisas de malha tomaram o espaço. Além destes membros, os bonecos com mais de 2,5m de altura, aqui chamados de Baianas e Catitões, acompanham o cortejo do Zé Pereira.

Chegado o Carnaval é a hora de dar o charme final, nisso o bloco capricha nas fantasias e demais componentes do clube, tais como o Boi da Manta (figura antiga na história do Clube e que é carregada por um homem mascarado, abrindo o caminho para o bloco passar) e as lanternas, iluminadas por velas e que recebem tons coloridos devido às cores dos papéis e plásticos que a contornam. Um pouco mais atrás, encontram-se os cariás, divertidas crianças fantasiadas de capeta e que com lanças afiadas tiram fogo das ruas tricentenárias da cidade. 

Mas quem pensa que para se fantasiar de cariá tem de ser criança, está totalmente enganado, pois, um dos maiores símbolos dos cariás do clube é um senhor muito conhecido na cidade e que carinhosamente é chamado de Roque ‘’Mulher Velha’’. No meio desses cariás ainda estão os seus pais e familiares, que ao tomarem conta dos filhos, aproveitam para reviver aquele espírito mágico de carnaval que o Zé Pereira trás.

Desfile na Praça Tiradentes

Entre essa turminha, desfilam os enormes bonecos do clube e logo atrás, deles, abrindo a passagem dos músicos, encontramos as lanternas e os clarins, e por último os demais músicos ao som dos bumbos que fazem a marcação, e caixas de guerra que dão o ritmo envolvente do toque ‘’Zé Pereira’’;

Por onde passa, o bloco recebe aplausos e desperta em todos, a sensação de voltarem ao tempo e com isto, o direito de se emocionarem, principalmente aqueles que já o conhecem e o tem nas histórias de seus carnavais.

Zé Pereira e R. Mulher Velha
Um detalhe importante que eu percebo no Zé Pereira é que muitos dos que estão lá hoje, estão por influências dos pais ou amigos. Além desse detalhe, é muito bonita também a homenagem que o bloco faz ao passar em frente de casas de pessoas importantes na sua história, tal como acontece ao passar em frente a casa do Sr Teófilo Fortes, já falecido, na ponte do Antônio Dias e em frente a casa do Sr Dodô, membro histórico do clube e que nos deixou há alguns anos.

Além destas homenagens, todos os falecidos que passaram pela história do clube são lembrados no dia do desfile oficial na Praça Tiradentes.

Considerações: O bloco não é hoje, nem de longe o que ele era há um tempo, e por isso, vem passando por muitas críticas, sendo que muitas têm fundamento, e pela ausência de pessoas importantes que sempre fizeram parte dela. Mas graças aos esforços daqueles que são responsáveis por botar o bloco na rua, entre eles o ‘’Jacaré’’ e o Salvador Gentil e à renovação incrível que acontece, pois a cada ano o número de crianças aumenta, é que o bloco continua indo para a rua e garantido o bom e velho carnaval de Ouro Preto para todos.

Um recado final, talvez mais uma opinião pessoal mesmo: A Bahia tem os Filhos de Gandhy, Ilê Aiyê, Olodum, etc... todos ao baianos se orgulham disso. O Rio tem as Escolas de Samba super clássicas, como a Mangueira, Portela e Vila Isabel e todos se orgulham disso. Em Ouro Preto, cidade sede desse bloco centenário, o orgulho não pode se diferente!

Vídeos:





Extras: 

  • A origem do nome se distingue entre duas versões:


  1. Em certas regiões de Portugal o bumbo era chamado de Zé Pereira
  2. Na noite de estréia, os foliões ao invés de gritarem ‘’Zé Nogueira’’, gritavam ‘’Zé Pereira’’




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