15 de jan. de 2012

Afinal, como foi o início da música brasileira?

Caros leitores, não sei se já pararam algum minuto para pensar sobre os primórdios da música brasileira. Antes de ter a ideia de criar esse blog, já tinha uma vaga noção, mas bem distante do que realmente foi o início da música brasileira. Sempre ao pensar no passado, me vinha à cabeça aquelas músicas clássicas, presentes em todos os filmes que registram a época. 

Nesse artigo, pretendo apresentar o início da nossa música além de buscar formas de entender como esse início influenciou na formação da sua identidade.

Para continuarmos proponho algumas perguntas básicas:

Como era antes de 1500?
Como ficou após a chegada dos portugueses?
Quais instrumentos eram usados?
Como se difundiu?

Então, vamos lá...

Os primeiros duzentos anos

Logo que chegaram ao Brasil, os portugueses se depararam com os índios. E ao passarem a conviver um pouco mais eles, foram conhecendo a sua forma de expressar através da música. Os indígenas dançavam em círculos, cantando e batendo os pés. E entre seus cantos, um era dedicado a uma ave amarela denominada ‘’Canide Iouni’’. Entre os instrumentos utilizados pelos tupis estavam a Flauta, o Tambor e o Chocalho.


Padres Jesuítas e os Índios
As danças e os cânticos dos indígenas eram voltados para o mágico e essa pré disposição indígena para a música facilitou a aproximação dos padres jesuítas.

É equivocado atribuir uma única fonte inicial para a música brasileira. Pensem comigo: se hoje, o Brasil é marcado pela sua diversidade cultural, imaginem há cinco séculos, com a presença e unificação de diferentes povos e culturas, sendo que os de maior destaque e que mais influenciaram na formação da nossa música foram os indígenas, portugueses e africanos.

Nessa mistura, vamos correlacionar alguns instrumentos e, de acordo com as suas origens, entender como a nossa música foi sendo moldada. Como dito anteriormente, os indígenas usavam flauta, tambores e chocalhos. Todos esses instrumentos produzidos artesanalmente por eles. Agora, da parte européia, vieram a Viola, o Piano, a Flauta Doce, o Violino e demais instrumentos de corda. Finalizando, da África, o Berimbau, o Agogô, o Atabaque e a tão popular Cuíca, que era chamada de Twipa.

Com o passar dos anos, a influência indígena foi tendo menos peso na música.  Mesmo com essa perda, ela acabou ao término do segundo século de existência do nosso país, dividindo com as culturas africana e européia, o posto de formadores da música brasileira.

Escravos em festa
Na verdade, é muito difícil conseguir dados referentes à música brasileira entre os séculos XVI a XVIII. Mas, de acordo com os resultados de pesquisas realizadas por estudiosos da área, podemos afirmar que a música popular brasileira foi se formando de acordo com os centros urbanos que vinham sendo erguidos no país.



Os Séculos XVIII e XIX e a influência mineira

Com o crescimento do país e formação de novos centros urbanos, a música vinha sofrendo bastante influência por parte daqueles que eram os seus precursores. No Rio de Janeiro e em Salvador surgiram dois tipos musicais que nortearam os rumos da musica brasileira: o Lundu e a Modinha. O Lundu, oriundo da África, era bastante sensual e continha uma batida rítmica dançante. Já a Modinha, oriunda de Portugal, falava de amor e apresentava uma batida calma e erudita.

Uma cidade que eu fiquei surpreso, ao ler sobre a história da nossa música, é Ouro Preto. Essa Ouro Preto que eu moro e muito dos leitores deste Blog também. Cresci aqui e recebi uma educação bastante forte sobre essa cidade, tanto nas escolas quanto na minha própria casa. Em ambas, a importância de Minas e de Ouro Preto na música brasileira, nunca foi explorada. Essa força ouropretana na história da música brasileira é uma grata surpresa pra mim. 

No século XVIII, Vila Rica (hoje, Ouro Preto) vivia o auge da época do ouro, era a capital mineira e continha uma miscigenação muito forte, o que contribuía para o desenvolvimento da música na cidade. Não somente Vila Rica, mas também Mariana, antiga Vila do Carmo, São João Del Rey e Arraial do Tejuco, atual Diamantina. A música nessas cidades, devido às diferentes classes sociais existentes e ao fato da religião católica estar presente em todas, se desenvolveu fortemente.

Órgão da Sé em Mariana
Muitas dessas cidades, chegaram a importar órgãos europeus que foram sendo instalados nas igrejas. O conhecido Órgão da Sé, em Mariana, foi um presente enviado pela Coroa Portuguesa ao primeiro bispo da cidade.

As irmandades exerciam grande influência nessas cidades mineiras, o que contribuiu para a supremacia da Música Sacra. Cada vez mais, a Música Sacra atraía e promovia grandes compositores nacionais para essas cidades, entre eles Lobo de Mesquita, Manuel Dias de Oliveira e Ignácio Parreiras Neves.

É válido ressaltar que esses compositores não eram os únicos que se destacavam na região. A Música Profana, também se desenvolvia devido ao crescimento das festas populares. Resultando, na capitania de Minas Gerais, principalmente após a segunda metade do século XVIII, no surgimento de um grande número de compositores mulatos, que encontravam na música a possibilidade de ascensão social, uma vez que exercer profissões clássicas não lhes era permitido. Esse talento dos mulatos lhes dava a possibilidade de fazer apresentações em locais onde só brancos eram aceitos.

Casa da Ópera de Vila Rica
Os compositores mulatos tinham muitas de suas composições, voltadas para peças teatrais, onde podemos destacar a forte presença delas nas peças exibidas na Casa da Ópera de Vila Rica.

Em se tratando de registros históricos, que já não são muitos, a maioria disponível é relacionada à Música Sacra. Infelizmente, o que se refere a música mais popular da época, é em sua grande maioria, de autores desconhecidos.

Com o declínio da exploração aurífera, Vila Rica e as demais cidades mineiras deixaram de ser o foco da música, e este foi deslocado, principalmente, para o Rio de Janeiro e São Paulo.

O Século XIX e o início da música tipicamente nacional

Banda Euterpe Cachoeirense
As bandas regionais surgiram em Minas no século XIX. Estas substituíam os instrumentos de corda por instrumentos de sopro. O surgimento destas bandas possibilitou que a música saísse dos palcos e chegasse até o povo, sendo que eram feitas apresentações em coretos, adros de igrejas, festas públicas e religiosas.

Nesse artigo, não entrei em detalhes sobre a presença da música erudita no Brasil. O que, aliás, vocês podem estar sentindo falta. Optei por assim fazê-lo, uma vez que a meu ver, a Música Erudita não retratava o que era a música que se tornava brasileira e era apenas a representação do que era encontrado nos concertos europeus.

Carlos Gomes
Porém, nesse artigo, é impossível não falar do compositor Antônio Carlos Gomes, que dentre os seus feitos, se destacou por inserir, na Música Erudita, uma temática mais nacionalista, mas sem perder o tom europeu. Isso já na segunda metade do século XIX. Apenas no final desse século é que se pode afirmar que a música brasileira começou a ter um caráter mais nacional.

Neste período, começavam a nascer importantes músicos e novos estilos de músicas no país, em conseqüência de junções de vários estilos já presentes na nossa cultura e que a partir do início do século XX mudariam para sempre a história da música brasileira. Bom, mas isso é papo para uma próxima conversa!

Extras:

  • ·        No auge, Vila Rica possuía aproximadamente duzentos e cinqüenta músicos profissionais. Para conhecer um pouco mais sobre os compositores que se destacaram na capitania de Minas Gerais clique aqui: http://www.cidadeshistoricas.art.br/hac/artmus_05_p.php
  • ·       Em Mariana existe o Museu da Música, que contém arquivos históricos principalmente sobre a música mineira até o século XVIII. Site www.museudamusica.com.br            
  • ·   Na Catedral da Sé em Mariana ainda existem apresentações públicas. Para mais informações visite http://www.orgaodase.com.br/
  • ·         Em Ouro Preto e em várias cidades mineiras ainda é possível encontrar essas bandas que se iniciaram no séc XIX. Aqui em Ouro Preto conheço a Sociedade Musical Senhor Bom Jesus das Flores e Sociedade Musical Senhor Bom Jesus de Matozinhos.
  • ·          A Casa da Ópera de Ouro Preto é a o teatro mais antigo em atividade das Américas.


Fontes:

TINHORÃO, J. R. História social da música popular brasileira. São Paulo: Editora 34, 1998. 365 p.











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